22 fevereiro, 2007

Porquê o Livro? II

Sugestão de:

Margarida Moura: Professora de Língua Portuguesa; elemento da equipa da Biblioteca Escolar




Livro: “O Aniversário da Infanta”Oscar Wilde

Por que escolhi este livro?

A minha curiosidade foi despertada por uma encadernação resistente, ricamente ilustrada e deliciosamente colorida, características que se mantêm ao longo do livro.
Os olhos passaram sôfregos sobre a história de uma infanta espanhola que comemora doze anos de idade. Já sem mãe e com um pai ausente e deprimido, que vive mergulhado em lembranças da rainha, morta seis meses depois do nascimento da infanta, ela só quer divertir-se, pois, apesar de todo o protocolo, é ainda uma criança.

O ponto alto da festa é o espectáculo para ela preparado, em que entram touros e toureiros de brincadeira, teatro de fantoches, prestidigitadores, ginastas, mágicos, música e dança. A tudo a infanta assiste entusiasmada, mas só quando entra em cena um anão “bamboleando-se nas pernas arqueadas e abanando a cabeça disforme”, o seu prazer é real, a ponto de lhe atirar para a arena a rosa do seu cabelo e querer ver, mais tarde, nova interpretação.
A paixão do anão pela infanta é imediata, não lhe ocorrendo sequer que era impensável para uma princesa espanhola nutrir sentimentos por alguém tão disforme e inferior.
O desconhecimento do seu aspecto físico e das crueldades do mundo real, levam-no a correr e a saltar, livre, pelos jardins do palácio, cantando o seu amor e escandalizando as altivas flores, cada uma mais nobre do que a outra, mas encantando pássaros e lagartos, que amam a liberdade como ele.
A longa espera pelo segundo espectáculo pedido pela princesa, fá-lo entrar no palácio e rebuscar cada sala em busca do seu amor. Embrenhado nas ricas tapeçarias, lustres, pérolas do dossel, veludos e quadros de figuras reais, vislumbra, de repente, um ser monstruoso, feio, pequeno e disforme, que repete cada gesto seu, cada olhar, cada trejeito. A súbita consciência de que está a olhar para si próprio, assusta-o mais do que a morte, pois apercebe-se que, afinal, o que encantou a princesa não foi a sua graça, o seu espírito, mas a sua fealdade. Não era amor, mas gozo, escárnio. Roja-se no chão, tomado pela dor, de coração partido. Nem a chegada da princesa o reanima. Ela insiste que ele dance, indiferente, sem se aperceber da sua partida e ao ser disso informada, exige que, de futuro, os bobos não tenham coração.

É, no fundo, uma história de amor, cheia de obstáculos e preconceitos, que nos alerta para a importância de ver para além do aspecto físico e para o cuidado que devemos ter com os sentimentos dos outros, pois, tal como escreveu Saint-Exupéry, no seu livro “O Principezinho” – “Somos para sempre responsáveis pelas pessoas que cativamos”. Margarida Moura


Biografia:
Oscar Wilde nasceu em Dublin, Irlanda, a 16 de Outubro de 1854, e morreu em Paris a 30 de Novembro de 1900, vítima de meningite.
Escreveu sobretudo comédias e contos, inclusive infantis, sendo “O Retrato de Dorian Gray” o seu único romance.
Entre as comédias e contos destacaram-se “Uma Mulher sem Importância”, “Um Marido Ideal”, “A Importância de ser Sério”, “O Príncipe Feliz” e “O Aniversário da Infanta”, estes últimos contos infantis, em que é retratada a criança que vive em cada um de nós, com lições de moral belas e puras.

Livro recomendado no programa de português do 5º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada na sala de aula - Grau de Dificuldade III

Consulta na Internet:

1 comentários:

Oriana disse...

Essa infanta de Espanha era realmente muito cuel.O seu desumano coração em relação a outro ser humano, traduz a arrogância das classes dominantes desta Humanidade desclassificada.
Ainda bem que ainda existem "Belas e Monstros" e princesas que beijam sapos.
Obrigada, Professora Margarida pela sua interpretação do livro. Aprendi o que desconhecia.

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