29 janeiro, 2007

Porquê o Livro?

Joe Sorren


«Um dia li um livro e toda a minha vida mudou. Desde a primeira página,
sofri com tanta força o poder do livro que senti o meu corpo apartado da
cadeira e da mesa a que me sentava. No entanto, ao mesmo tempo que
experimentava a sensação de que o meu corpo se afastava de mim, todo
o meu ser continuava, mais do que nunca, sentado na cadeira, à mesa, e o
livro manifestava todo o seu poder não só na minha alma, mas em tudo
o que compunha a minha identidade». Orhan Pamuk A Vida Nova


O mote está dado:
Lançámos o desafio à comunidade escolar (Alunos, Professores, Funcionários e Encarregados de Educação) para que nos falassem de livros! Queremos partilhar com todos o gosto pela leitura e nada melhor do que perceber a importância do livro naqueles que nos são mais próximos. Esse livro poderá ser O Livro da minha Vida, O Último Livro que Li, O Primeiro Livro que Li, ou outro. No fundo, será aquele que poderá influenciar e criar novos leitores e o que se pede são algumas palavras sobre a obra, referindo o que mais gostaram do livro, ou simplesmente o que considerem importante.



"Os livros da minha vida"
Paulo Ramalho
Revista A Mar Arte, Inverno/Primavera/98

Recordo Sandokan mas não o exacto dia
em que ele saltou da selva para o livro que eu lia.
Júlio Verne, esse, chegou de balão
e pousou-me devagarinho na palma da mão.
Depois houve uma ilha e um tesouro
(a memória agora zune como um besouro),
Tom Saywer, a quem disputei a namorada,
Dumas, de quem herdei esta espada quebrada,
e Dois Aventureiros sempre à roda do Mundo
em livros velhos, de folhas soltas e aspecto imundo,
que comprava a um alfarrabista da esquina
cujo cabelo tinha risca, caspa e brilhantina.
Lembro-me de ser o Robin dos Bosques de mim menino:
vivia mil aventuras, roubava a cada herói o seu destino.
Agora, se ainda cavalgo estas histórias contra o vento,
já me pesa a lança, já me arrasto no jumento;
deixei lá atrás, nas planícies brancas da infância,
O meu selim de prata, perdi muitos livros na distância.
Em troca encontrei um dia Borges no seu labirinto
e antes dele Hemingway, com quem pesquei, bebi vinho tinto
e vi correr o sangue nas arenas da altiva Espanha
(não li ainda o Quixote, guardo-me de tanta quimera, tanta façanha,
por ora basto-me com Eça, Cesário, Pessoa
– e vejo moinhos da Ibéria nas tascas da Madragoa)
Calvino recebeu-me num castelo. Chamou-me Visconde,
falou de Cidades Invisíveis, lugares misteriosos onde
sonho e magia cruzam sem cessar as nossas Vidas.
Tolkien estava ao lado e disse: "falamos, claro de Eras idas".
Mas eu discordei: "há ainda Macondo, dos Cem Anos de Solidão,
cujos Buendias revisito sempre com a mesma emoção".
Depois olhei para as mãos e acrescentei: "E há os poetas".
(Sabes, Ruy, também eu atribuo à poesia
a reconquista trabalhosa da margem da alegria.
Por isso não esqueço Elsinore do Cesariny, O'Neil e as setas,
Whitman – ele próprio, Sofia serenamente ao sul,
Os miasmas de Baudelaire e a colher de Herberto na minha boca azul).



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